Deus! O Espírito e a Carne!

"Então disse o SENHOR: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos."

 

Será necessário questionar para entender o sentido desse texto.

 

I. Quem é significado pelo Espírito de Deus e se o Espírito Santo, a terceira pessoa na Trindade, é designado ou não.

 

1. Alguns dos escritores judaicos pensam que a alma do homem é pretendida e que é chamado não só o espírito do homem, mas também o Espírito de Deus: como nas palavras de Jó, Que, enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus nas minhas narinas (Jó 27.3). Alguns deles derivam a palavra dg traduzida contenderá de zry, que significa a bainha de uma espada, e dizem: “O que a bainha é para a espada, assim é o corpo para a alma”, e dão esse sentido as palavras; Meu Espírito, ou a alma que pus no Homem, não habitará para sempre nele como a espada na sua bainha; Eu a irei desembainhar, Eu o tirarei para fora; ele não viverá para sempre, visto que ele é carne, corrupto, dado a concupiscências carnais; ainda os seus dias, o termo da sua vida, que agora encurtarei, será cento e vinte anos.” Outros deles dão esse sentido às palavras para esse propósito; “Meu Espírito, que tenho soprado no homem, não contenderá mais com o corpo, pois não se deleita no corpo nem recebe proveito do corpo, porque o corpo é levado atrás de vontades animais e isso porque é carne, os seus desejos são mergulhados e fixados na propagação da carne; não obstante, prolongarei os seus dias por cento e vinte anos; se eles voltarem pelo arrependimento e fizerem bem; mas se não, os destruirei do mundo.” O Targum parafraseia as palavras assim, “A geração pecaminosa não será estabelecida diante de mim para sempre”.

 

2. Outros, tais como Sol Jarchi, entendem como se Deus estivesse falando consigo mesmo, “Meu Espírito, que está dentro de mim, não será para sempre, como antes, em tumulto ou contenda sobre o homem, se devo poupar-lhe, ou destruí-lo, como tem sido por muito tempo, mas não será mais. Eu deixarei o homem sabendo que não estou indeciso entre misericórdia e julgamento, mas estou determinado a ponto de puni-lo, já que ele está completamente entregue aos prazeres carnais, quando o poupei por mais cento e vinte anos.” Este sentido das palavras é bem aceito entre os homens instruídos . E se quaisquer destes sentidos forem aceitos, cai por terra, o raciocínio dos arminianos sobre estas palavras, a favor do seu esquema, mas estou disposto a aceitar

 

3. que pelo o Espírito de Deus, nós devemos entender o Espírito Santo, assim Jonathan Ben Uzziel, no seu Targum, expressamente o denomina; e eu sou induzido fortemente a crer que este seja o sentido da frase; como quando o apóstolo Pedro fala de Cristo sendo mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito, que se trata do Espírito Santo, e acrescenta, no qual, isto é, no Espírito, também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé (I Pedro 3.18-20). Tais palavras referem-se àqueles em Gênesis e são a melhor chave para eles, e comentário sobre eles. Eu prossigo considerando que

 

II. se o Espírito Santo estava nos homens do mundo antigo, como é observado, as palavras podem ser versadas, Meu Espírito não contenderá para sempre no homem; e pode-se concluir então: que o Espírito de Deus está em todo homem e que pela desobediência deste, Ele pode remover-se inteiramente do homem.

 

1. O Espírito de Deus está em todo lugar, em toda criatura; e, então em todo homem. Pois Ele é Deus onipresente; por isso, diz o Salmista: Para onde me irei do teu espírito? (Salmos 139.7). Ele também pode estar em certas pessoas pelas suas dádivas naturais ou divinas, e isto de maneira ordinária ou extraordinária, ou por algumas operações dEle sobre a mente, que não são de natureza salvadora, nem designada para um propósito salvador; e em um ou o outro destes sentidos, a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil (I Coríntios 12.7); e pode-se dizer que Espírito está tanto nos homens do mundo antigo quanto nos deste. Contudo,

 

2. é necessário negar que Ele está em cada homem de uma maneira de graça especial, caso este tenha um bom comportamento para obter salvação, pois todo homem, não convertido, é destituído do Espírito; se O Espírito habitasse em todo homem, neste sentido, a habitação do Espírito no interior não seria evidência da regeneração. A diferença entre um homem regenerado e um homem não regenerado neste estado é que o primeiro tem O Espírito de Deus e o último não tem. Portanto,

 

3. é fácil julgar em que direção o Espírito de Deus parte. Ele não parte de onde Ele já está. Ele pode retirar-se completamente de onde está, somente nas suas dádivas ou operações externas. Ele pode tirar essas dádivas ou cessar estas obras; e estas assim como os homens, podem ser perdidas eternamente; mas onde Ele está pela Sua graça especial, Ele nunca se retira totalmente, apesar de poder tirar a Sua presença graciosa por um tempo; Seu povo pode não provar Seu gozo e conforto, e nas suas ansiedades pode parecer que Ele tenha se afastado. Contudo, Ele habita para sempre no Seu povo; de outra sorte as orações de Cristo pela Sua continuação perpétua com Seu povo não seriam respondidas; nem seria a moradia do Espírito no crente uma razão de garantir a perseverança dos santos, nem uma garantia da sua glória futura. Para não acrescentar ainda mais, as palavras do texto não falam do Espírito estar nos homens do mundo antigo, mas da Sua contenda com eles. Portanto a próxima consulta é:

 

III. Qual o significado das contendas do Espírito? E se pela negligência dos Seus homens ou oposição a Ele, Ele pode contender sem sucesso.

 

1. A Palavra Hebraica zwd, usada aqui, significa julgar, executar julgamento, ou punir de uma maneira justa; e, portanto, alguns leem estas palavras, Meu Espírito não julgará estes homens para sempre; “Eu não reservarei eles para tormentos eternos; Eu os punirei aqui neste mundo, pois são criaturas pecaminosas, frágeis e carnais; Eu não contenderei para sempre, nem para sempre serei irado, pois o espírito falharia perante mim, e as almas que tenho feito;” (Isaías 57.16) ou preferivelmente o sentido é de acordo com esta versão. “Meu Espírito não exercitará julgamento sobre eles para sempre, isto é, imediatamente, diretamente, neste instante; embora que sejam tão corruptos, eu os darei o espaço de cento e vinte anos para arrependerem-se; e depois disto, caso não se arrependam, Eu os entregarei à destruição; que estava de acordo com o fim das coisas. ”

 

2. A palavra aqui traduzida contenderá, significa também litigar um ponto ou razão em uma causa; antes que seja pronto para o julgamento, ou a execução dela. Agora o Espírito de Deus tem litigado, isto é, questionado e arrazoado com estes homens no tribunal e na corte das suas próprias consciências, sobre os seus pecados, por uma providência ou outra, e por um ministro ou outro; particularmente por Noé, um pregador de justiça, e isso sem resultado; portanto, Ele determina a não continuar por mais tempo neste caminho, mas proceder e julgar e executar a sentença de condenação neles, uma vez que foram tão corruptos, sendo nada mais do que carne. Não obstante, isto é, apesar do comportamento carnal, para mostrar Sua clemência e paciência, Ele concede-lhes uma prorrogação de cento e vinte anos; que se trata da longanimidade de Deus do qual o apóstolo fala, que esperaram nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca (I Pedro 3.20). Portanto, parece que as contendas do Espírito de Deus com estes homens foram somente pelo ministério externo da Palavra, de uma maneira persuasiva moral, que não deu resultado. Isso pode nos levar a observar a insuficiência de persuasão moral e do ministério externo da Palavra sem a graça poderosa e eficaz do Espírito.

 

3. Agora é fácil discernir em que sentido o Espírito de Deus pode ser contrariado, resistido e contender sem sucesso. As coisas do Espírito de Deus são desagradáveis ao homem natural: não é nenhuma surpresa que o ministério externo da Palavra e as ordenanças sejam desprezados, contrariados e resistidos. A chamada externa pode ser rejeitada; na verdade, alguns movimentos internos e convicções podem ser anulados, sufocados e não resultar em nada; ainda assim, será aceito o fato de que pode ser que haja uma oposição e resistência a obra do Espírito de Deus na conversão, mas o Espírito não pode ser assim resistido nas operações da Sua graça, ao ponto de ser obrigado a cessar a Sua obra ou de ser dominado, ou impedido nela, pois Ele age com métodos que não podem ser frustrados e com um poder que não pode ser controlado; se fosse de outra maneira, a regeneração e conversão de cada um seria necessariamente precária, e onde a graça do Espírito é eficaz, de acordo com a doutrina do livre arbítrio, seria mais devido à vontade do homem do que a do Espírito de Deus.

 

IV. A pergunta pode ser feita se o mundo antigo tinha um dia de graça, e se também toda humanidade pode ser salva se desejar; durante o tempo em que o Espírito contende com o homem, e quando este morre. Ele não contende mais.

 

1. O espaço de cento e vinte anos dado ao mundo antigo para arrependimento foi, de fato, um favor, uma indulgência da Providência divina, um tempo da longanimidade e benignidade de Deus; mas não significa que, por causa de terem um tempo alocado a eles, no qual se tivessem se arrependido, teriam sido salvos de uma ruína temporária; e que isso segue acontecendo com toda a humanidade, que tem um dia de graça, se ela melhorar e que ela pode ser salva com a salvação eterna. Porque

 

2. se um dia de graça significa os meios de graça, o ministério externo da Palavra e as ordenanças são insuficientes para a salvação, sem a graça eficaz de Deus; e, além disso, estes não são utilizados por toda a humanidade. Todo homem não tem um dia de graça neste sentido. Às vezes os meios de graça têm sido confinados a uma nação em particular, e o resto do mundo tem ficado sem ela por um número considerável de anos. Este era o caso das nações do mundo que Deus permitiu andar nos seus próprios caminhos, negligenciou, não as notou; não deu a elas nenhum dia de graça; enquanto a Sua adoração foi mantida apenas na terra da Judéia. E desde a vinda de Cristo, a administração da Palavra e as ordenanças têm sido às vezes em um lugar, e às vezes em outro, quando o resto da humanidade tem ficado sem: para que todo homem não tenha nesse sentido um dia de graça.

 

3. A inteira dispensação do Evangelho em geral pode ser chamada de o dia da graça, mas esse dia não expira enquanto os homens vivem ou morrem; ele os alcança desde a vinda de Cristo até o fim do mundo e continuará até todos os eleitos de Deus serem agregados: nem se pode dizer de qualquer homem se ele viveu ou pecou além desse dia da graça; pois ainda está dito, Hoje, se ouvirdes a sua voz; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação (Hebreus 3.7; II Coríntios 6.2).

 

4. O dia especial da graça, aberto para os eleitos de Deus começa na conversão deles, que nunca findará, nunca terminará para eles; pois se ainda resta um pouco de nuvens e escuridão, será eliminado, e eles serão transformados naquele dia de glória eterna.

 

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