Política x Religião

Política x Religião

 

 

 

Desde o acordo assinado pelo governo brasileiro e o Vaticano, em novembro de 2008, a laicidade do Estado tem sido questionada no país. O Brasil é realmente um estado laico? Como igrejas e teólogos posicionam-se diante da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas, um dos itens previstos no acordo?

 

A laicidade do Estado como garantia da liberdade de consciência, de crença e de culto.

 

Essas três dimensões da liberdade são distintas, mas intimamente relacionadas. A liberdade de consciência diz respeito ao íntimo dos indivíduos. Mesmo o uso da violência ou a tortura não é capaz de cerceá-la; o indivíduo pode até ser coagido a determinadas ações, mas é impossível controlar o que se passa em seu pensamento. A liberdade de crença, também de caráter interior, “aloja-se no ninho da liberdade de consciência”. Já a liberdade de culto é a exteriorização da liberdade de crença e ocorre no espaço coletivo.

 

No Brasil do período imperial, a liberdade de crença foi limitada pelo regime do padroado, que dava à Igreja Católica o status de religião oficial e única. Crentes de outras denominações só poderiam se reunir a portas fechadas, em edifícios que não tivessem a forma exterior de templo. “E ainda há países do mundo em que a liberdade de culto é tolhida”.

 

A proclamação da República, em 1889, trouxe a separação entre Igreja e Estado e, a princípio, foi bem vinda pela Igreja Católica, incomodada pela interferência estatal. “Mas esse ponto sempre foi polêmico”. A instituição não queria perder a influência que sempre teve sobre a sociedade brasileira. Há de convir que durante 210 anos a Igreja Católica cuidou da escola pública, por intermédio dos jesuítas, que eram financiados pelo padroado. “É metade de nossa história! Ninguém se livra facilmente dessa herança”.

 

O ensino religioso ministrado em escola pública pode se tornar um perigoso espaço de luta pelo poder e uma violência contra as minorias. No caso brasileiro, pesquisas acadêmicas já detectaram vários exemplos de práticas religiosas adotadas no ambiente escolar que, aceitas pela maioria cristã, discriminam outros grupos religiosos. “Numa pesquisa que realizada em oito cidades próximas a regiões metropolitanas, encontrou-se turmas de alunos aos quais se exigia a oração do Pai Nosso antes de iniciar as aulas. Visto, inclusive até uma diretora que mantinha um altar na escola”. Julgar que a maioria deva determinar os rumos de qualquer grupo social é uma distorção do princípio democrático. “A maioria elege e quem é eleito deve governar para todos e todas”.

 

Governar para toda a população, no delicado campo da crença, seria a irrestrita adoção da laicidade do Estado.  As relações entre Igreja e Estado podem ser compreendidas em diferentes níveis. Nos estados teocráticos ocorre a fusão entre as duas instâncias de poder. O Estado existe como decorrência da religião. Tal é o caso da República do Irã, por exemplo. E nos estados em que o Estado é separado da religião, essa separação pode ocorrer com “hostilidade” – como da antiga União Soviética, em que a religião foi banida da vida pública – ou numa relação pacífica. Países como Uruguai e Costa Rica, sempre prezaram por ter o Estado desvinculado da religião, respeitando a liberdade de culto de todas as crenças. No caso do Brasil, no entanto, ocorreria uma quarta forma de relacionamento, chamada de separação “atenuada”: aqui, o Estado não apenas garante a liberdade, mas reconhece que valores religiosos podem ser relevantes para a população. Esse reconhecimento está na Constituição e explica, por exemplo, a isenção fiscal que privilegia templos religiosos, a existência de capelanias militares e o próprio acordo com a Santa Sé. Contudo, esse acordo fere o Artigo 19 da Constituição, que proíbe ao Estado firmar qualquer tipo de acordo com religiões ou seus representantes: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”. Para melhor entendimento, não vale o argumento de que a Santa Sé seria comparável aos demais estados: “Ninguém tem cidadania ou passaporte vaticanos”.

 

Alguns exemplos da fusão mal sucessida entre Política e Religião

 

 

Acabe, rei de Israel

Acabe foi um rei politicamente forte e muito poderoso, mas muito fraco na moralidade pessoal. Ele fez alianças com Fenícia, Judá e Síria e levantou Israel como uma nação. No entanto, ele permitiu que sua esposa e rainha, Jezabel, uma mulher estranha para Israel, tanto na nacionalidade quanto na prática religiosa, promovesse idolatria em Israel. Isso provocou a ira de Deus e levou à queda de Acabe. Ele juntou-se a sua rainha na prática de idolatria, no entanto se humilhou diante de Deus ocasionalmente. Ele morreu em batalha em 853 a.C.

Israel invadido pelos siros

Podemos ler sobre como aconteceu a guerra entre Israel e a Síria, também chamada de “Arã” (1 Reis 20:1-21). Ben-Hadade, o rei da Síria, fez uma proposta, esperando que Acabe recusasse. Essencialmente, Síria exigiu que Acabe pagasse tributo à Síria que consistia de tudo de valor em Israel. Acabe teria que recusar isso, e seria o pretexto da Síria para guerra.

Pode ser que Ben-Hadade estava com medo que Israel estivesse ficando forte demais, assim obrigando Acabe a lutar. Acabe deu sua resposta famosa: “Dizei ao rei, meu senhor: Tudo o que primeiro demandaste do teu servo farei, porém isto, agora, não posso consentir. E se foram os mensageiros e deram esta resposta. Ben-Hadade tornou a enviar mensageiros, dizendo: Façam-me os deuses como lhes aprouver, se o pó de Samaria bastar para encher as mãos de todo o povo que me segue. Porém o rei de Israel respondeu e disse: Dizei-lhe: Não se gabe quem se cinge como aquele que vitorioso se descinge” (1 Reis 20:9-11). Isso foi uma resposta corajosa, mas arrogante. Acabe avisou ao Ben-Hadade que não agisse como se já houvesse ganho. Mas a arrogância de Acabe é vista no fato que ele não buscou a ajuda de Deus.

Com a batalha marcada para começar, Deus interveio para que Israel soubesse “que eu sou o Senhor” (1 Reis 20:13). Acabe fez como o profeta o instruiu, e a Síria foi derrotada. Mas os siros tiveram uma idéia. Teria uma segunda batalha (1 Reis 20:22-43). Os siros atribuíram corretamente a vitória de Israel ao seu Deus. Julgando-o como o Deus apenas dos montes, eles decidiram atacar Israel nas planícies (1 Reis 20:23,28). Novamente Acabe se preparou para a batalha sem buscar a ajuda de Deus. Novamente Deus interveio, não por causa de Acabe, mas porque os siros pensaram que ele era apenas “um deus dos montes”. Os siros foram derrotados com grandes perdas. Acabe, confiando na seu próprio juízo político, poupou Ben-Hadade e fez uma aliança com ele (1 Reis 20:32-34).

O Senhor ficou irado com Acabe por ter poupado Ben-Hadade. Deus predisse que na próxima batalha, Ben-Hadade venceria e Acabe morreria. Acabe ficou “desgosto e indignado” com a repreensão de Deus (1 Reis 20:42-43).

Há muito para aprendermos, hoje em dia, desta história. Algumas coisas para você pensar a respeito:

Primeiro, Deus deve receber a glória que ele merece. Ele não é um Deus apenas dos montes, mas do universo que ele mesmo criou. Os siros não tiveram respeito suficiente pelo poder de Deus, e muitos hoje em dia também não têm! Temo por aqueles que não reconhecem Deus e não lhe dão a glória correta na suas vidas (1 Coríntios 1:24-25; Mateus 19:26; 22:29; Romanos 4:20-22).

Segundo, as coisas destinadas a destruição devem ser destruídas. Há coisas que o cristão deve destruir em relação aos seus pecados, suas atitudes e características perversas (Romanos 6:6; Gálatas 2:20; 5:24).

A vinha de Nabote

A cabe desejava a vinha de Nabote em Jezreel para usar como horta, e fez uma oferta para trocar terrenos. Nabote recusou a oferta de Acabe, e o rei ficou “desgostoso e indignado” (1 Reis 21:1-4). Jezabel planejou matar Nabote e seus filhos (1 Reis 21:7; 2 Reis 9:26), acusando-o com falsa acusações feitas por “homens malignos” que ela subornou. Nabote foi morto por crimes pelos quais ele foi acusado falsamente, e com a sua morte, Acabe tomou posse da sua vinha.

Deus mandou Elias para profetizar contra Acabe pela sua maldade. As oportunidades de Acabe para se tornar uma pessoa melhor haviam acabado (1 Reis 21:17-24). A profecia consistia de três partes principais:

1. O sangue de Acabe seria derramado no mesmo lugar.

2. A casa de Acabe seria destruída.

3. Cães comeriam Jezabel.

Acabe arrependeu-se e Deus adiou a destruição de sua casa até após a sua morte (1 Reis 21:27-29). Novamente podemos ver algumas lições importantes neste episódio da vida de Acabe:

Primeiro, não devemos ser tão fracos moralmente (como Acabe foi) que se torna fácil para os injustos nos manipularem (como Jezabel fez) (1 Reis 21:25-26). Dá para entender que Acabe nunca ficou confortável com as concessões que fez mas não estava disposto a tomar uma posição moral corajosa (Mateus 6:24).

Segundo, Deus irá retribuir mal por mal. No final das contas, nenhum mal fica sem pagar. Para homens e mulheres de fé, o preço foi pago por Jesus e aceito por nós através da nossa obediência fiel. O preço foi o sangue de Cristo. Para os sem fé, o preço será cobrado no julgamento final (Romanos 12:17,19; 2:5-6).

Israel e Judá invadem o território siro

A cabe pediu que o Rei Josafá de Judá os ajudasse em recapturar Ramote-Gileade. Josafá concordou em ajudar Acabe mas pediu orientação profética de Deus. Quatrocentos falsos profetas profetizaram sucesso. Micaías, um verdadeiro profeta de Deus, predisse derrota e foi preso (1 Reis 22:5-8,27-28).

Na batalha resultante, os siros foram vitoriosos. Apesar de estar disfarçado, Acabe foi morto por uma flecha perdida (1 Reis 22:34-37). Acabe morreu corajosamente na batalha. Os cães lamberam o sangue de sua carruagem no poço de Samaria, assim cumprindo uma parte da profecia de Elias (versículo 38). A profecia inteira seria cumprida em breve.

Novamente, estamos lembrados de algumas coisas importantes para nós também. A palavra de Deus é verdadeira e deve ser obedecida. Assim como Acabe escolheu não acreditar em Micaías o profeta, podemos fingir que a Bíblia não diz o que diz, preferindo alguma outra coisa, mas isso não muda a verdade (João 8:31-32,44-45; 14:6; 17:17; 18:37).

De certas maneiras Acabe teve muito êxito. Ele ganhou algumas batalhas. Sua nação prosperou durante seu reinado; ele é conhecido por construir cidades em Samaria. Mas sua vida acabou tragicamente, e ele entrou na eternidade afastado de Deus. Ele ouviu Jezabel demais e não ouviu Deus o suficiente. Ele foi um rebelde orgulhoso em vida, mas agora o orgulho se foi. É um sucesso vazio nesta vida que é seguido por derrota eterna! Deus foi paciente com Acabe. Não precisava acabar daquele jeito. Não tem que acabar daquele jeito com nenhum de nós!

 

 

Manassés, filho de Ezequias e de Hefzibá, foi o 14º rei de Judá, governando de 686 (aprox.) à 642 a.C. A principal fonte de informação sobre ele é o Antigo Testamento da Bíblia, estando a sua história registrada nos livros de II Reis 21:1-18 e II Crônicas 33:1-20.

 

Manassés nas fontes bíblicas

 

Segundo a Bíblia, Manassés iniciou seu reinado aos 12 anos e, por 55 anos, governou em Jerusalém.

 

Os textos bíblicos informam que Manassés não exerceu a devida liderança religiosa que desempenhou seu pai. Promoveu a idolatria à Baal, reconstruindo os altares destruídos por seu pai. Promoveu práticas de magia e adivinhação e introduziu até mesmo nos pátios do templo ritos e altares indevidos. Um dos extremos dessa chamada idolatria foi o sacrifício humano, tendo incluído os seus próprios filhos.

 

Fez ele também passar os seus filhos pelo fogo no vale do Filho de Hinom, e usou de adivinhações, e de agouros, e de feitiçarias, e consultou adivinhos e encantadores, e fez muitíssimo mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira. (II Crônicas 33:6)

 

A Bíblia diz também que Manassés não ouviu os profetas, e a tradição judaica menciona que ordenou a morte de Isaías, serrando-o em pedaços.

 

A situação política

 

A Assíria era a potência dominante naquela época e algumas décadas antes havia devastado o reino de Israel, bem como invadido Judá, quando o seu pai ainda governava, mas não obteve sucesso em invadir Jerusalém.

 

Os reis assírios Assurbanipal e Esar-Hadom listavam Manassés como rei tributário, e inclusive, a mesma Assíria levara Manassés cativo, por certo tempo.
De acordo com o livro de II Crônicas, a prisão de Manassés teria se dado por uma repreensão divina pelo fato do povo não ter dado ouvidos para se arrependerem de seus pecados:

 

E falou o SENHOR a Manassés e ao seu povo, porém não deram ouvidos. Pelo que o SENHOR trouxe sobre eles os príncipes do exército do rei da Assíria, os quais prenderam Manassés entre os espinhais, e o amarraram com cadeias, e o levaram à Babilônia. (II Cr 33:10-11)

 

Mudança de atitude do rei e atos finais

 

Após ser preso pelos assírios, ainda no cativeiro, Manassés arrependeu-se amargamente de seu proceder, fez uma sincera oração a Deus e resolveu mudar de atitude.

 

E ele angustiado, orou deveras ao SENHOR, seu Deus, e humilhou-se muito perante o Deus de seus pais, e lhe fez oração e Deus se aplacou para com ele e ouviu a sua súplica, e o tornou a trazer a Jerusalém, ao seu reino; então reconheceu Manassés que o SENHOR é Deus. (II Cr 33:12-13)

 

Foi então liberto por Deus, voltou a Jerusalém e removeu os altares de idolatria que havia construído. Passou a incentivar a adoração à Jeová (ou Javé) e a oferecer os devidos sacrifícios, retirando do templo os objetos de profanação.

 

Manassés ainda construiu uma muralha externa para defender sua cidade.

 

Reconstrução de Judá

 

Após a desastrosa revolta de Ezequias contra a Assíria, Manassés herdou de seu pai um reino devastado, reduzido territorialmente e gravado com um pesado tributo a ser mandado, anualmente, para Nínive. Recuperar o reino desse desastre, exigiu longos anos de esforço concentrado, conduzido pelo rei e seus assessores.

 

A primeira providência de Manassés consistiu em garantir que Judá pudesse trabalhar em paz. Para isso, ele cultivou a benevolência da Assíria, mostrando-se um vassalo fiel e prestativo. Um documento da época de Asaradão (Esarhaddon), sucessor de Senaquerib no trono assírio, menciona Manassés fornecendo abundante material de construção para um projeto real em Nínive. O rei seguinte, Assurbanipal, lista o judeu entre os soberanos que lhe enviaram presentes e o ajudaram a conquistar o Egito. O sucesso dessa política pode ser atestado no fato de Manassés ter conseguido reduzir o valor do tributo imposto ao seu reino. Um texto do Século VII a.C. mostra que esse tributo tornou-se menor do que o cobrado de Amon e Moab, reinos vizinhos de Judá. Quanto ao relato bíblico (2Crônicas 33,11) sobre a prisão de Manassés pelos assírios na Babilônia, sua credibilidade histórica é bastante discutível.

 

Perdida a fértil região de Shephelah, restou a Manassés intensificar a produção agrícola nas terras ao sul de Jerusalém, valendo-se do crescimento populacional dessa área, para onde se dirigiram os que escaparam da investida assíria. Com investimentos públicos e o esforço concentrado da população, essas terras, originalmente áridas, passaram a suprir cerca de 1/4 das necessidades de grãos do reino.

 

Mas o principal êxito de Manassés, em seu projeto de reconstrução de Judá, consistiu em integrar seu reino à economia internacional da Assíria, sobretudo ao comércio de produtos exóticos que fluia da Arábia. Algumas das importantes rotas de caravanas atravessavam territórios ainda controlados pelo reino judaico, circunstância que Manassés soube explorar em seu favor. Escavações arqueológicas descobriram dois grandes fortes construídos nessa época, no interior do deserto, para proteger os mercadores. Além disso, inscrições encontradas em diversos sítios em Judá evidenciam suas conexões comerciais com a Arábia. È também possível que o casamento de Manassés com Mesalemet (de provável procedência árabe) tenha resultado dos interesses econômicos do rei judaico.

 

No texto bíblico, Manassés é execrado como o monarca mais pecaminoso do Reino de Judá (2Reis 21,3-7), por ter reintroduzido a idolatria, permitindo a reconstrução de altares destruídos por seu pai. Ele chega a ser responsabilizado pela futura destruição de Jerusalém pelos babilônios, fato que somente ocorreria no século seguinte. Provavelmente, para obter a cooperação dos anciãos das aldeias e dos clãs, ao seu projeto de reconstrução econômica do reino, o monarca permitiu a retomada dos cultos populares a Baal, aos postes sagrados (Asherat) e aos astros do céu. Essas práticas religiosas, executadas em altares ao ar livre, sempre existiram nas áreas rurais do país, independente do culto oficial a IHWH, centrado no Templo de Jerusalém.

 

O Reino de Judá jamais se recuperou plenamente do desastre causado pela expedição punitiva de Senaquerib. Mas quando Menassés morreu, o país havia restaurado parte de seu vigor econômico, apresentando uma situação bem mais confortável do que o cenário de desolação deixado por Ezequias.

 

Conclusão

Para podermos compreender bem o que foi a Idade Média (476 a 1453) é necessário conhecer como a Igreja católica se desenvolveu nesse período. Foi durante os 10 séculos que se costuma chamar de "Idade Média" que o poder dessa instituição religiosa, juntamente com a fé cristã, cresceu e expandiu-se de maneira colossal.

A Igreja católica se baseia no cristianismo, a crença em Jesus Cristo, um homem que afirmava ser enviado pelo criador do mundo, Deus, para falar à humanidade. Ela surgiu no século 1 da nossa era, sendo o calendário cristão definido pelo ano que se supõe ser o nascimento de Jesus. O calendário oficial de todo o mundo ocidental até os nossos dias é o calendário cristão. Os contemporâneos de Jesus Cristo, que acreditaram nas suas palavras, passaram a espalhar essas ideias, contando os fatos de sua vida. Eles angariaram seguidores, cujo número foi crescendo ao longo dos séculos seguintes.

Conquistando cada vez mais adeptos à sua crença, os cristãos foram barbaramente perseguidos durante 300 anos. No entanto, a uma certa altura, foram aceitos pelo Império Romano, até então seu maior inimigo. Já nas últimas décadas antes do seu fim, este Império tornou o cristianismo a religião oficial dos romanos, proibindo outras crenças e rituais de serem praticados.

Igreja católica apostólica romana

A partir do século 4, com o Imperador Constantino, começaram a ser definidos os ritos cristãos pelos líderes dessa igreja. Havia cinco patriarcas ou bispos espalhados nas principais cidades do Império Romano. Esses patriarcas diziam-se herdeiros dos apóstolos de Cristo e, a partir do século seguinte, definiu-se que o bispo de Roma seria o mais importante deles, chamado de Papa, o vigário de Deus na Terra, pai de todos os cristãos. Assim, com o estabelecimento das normas da religião cristã, passou a se afirmar essa Igreja como católica (que significa universal, devendo ser expandida para todos), apostólica e romana.

É interessante constatarmos que a Igreja católica se constituiu como uma instituição no Império Romano. Mas, ainda que tenha sido fortalecida pelos últimos imperadores de Roma, sobreviveu à sua queda, em 476, e foi adquirindo cada vez mais poder e prestígio durante a Idade Média.

Esse poder continuou ganhando força ao longo dos séculos e alguns fatores ajudam a explicá-lo. Primeiramente, durante o Império Carolíngeo (séculos 8 e 9), a Igreja católica foi privilegiada com a concessão de um amplo território. O Império Carolíngeo iniciou-se com o domínio do norte da Europa pelos francos, numa política expansionista em direção a todo o continente europeu. Pepino, o Breve, que iniciou a dinastia Carolíngea, derrotando a dinastia anterior (Merovíngia - séculos 6 a 8), conquistou terras na Península Itálica e doou-as para o Papa, constituindo-se, assim, os Estados papais.

Poder e riqueza da Igreja Católica

A partir do século 10, com a desagregação política que caracterizou a Idade Média, sem um poder centralizador no continente europeu que comandasse os diversos povos que nele viviam, a Igreja Católica obteve espaço para ir expandindo cada vez seu "império da fé". Assim, acreditar em Cristo pressupunha uma série de regras que todo indivíduo deveria seguir para merecer um lugar após a sua morte no Paraíso celeste, ao lado de Deus.

Objetivando fazer os povos merecerem esse lugar no Paraíso, a Igreja instruía os fiéis a não pecarem, obedecendo aos mandamentos divinos e fazendo caridade. Essas caridades, por sua vez, além da ajuda ao próximo, também estavam diretamente relacionadas à doação de bens para a Igreja Católica, a fim de ajudá-la a prosseguir em sua missão.

Os nobres, então, como forma de se livrarem do que a religião considerava seus pecados terrenos, deveriam doar à Igreja bens materiais, como dinheiro, terras e riquezas. Portanto, o crescimento do poder dessa instituição e o tamanho de sua fortuna estão diretamente relacionados com a capacidade que a Igreja tinha de fazer com que os fiéis acreditassem nas verdades que ela pregava. Mais do que acreditar nelas, os fiéis deveriam temer a ira divina e o risco de queimarem no fogo do Inferno após a morte.

Mas como a Igreja fazia os povos acreditarem nisso e a obedecerem? Em primeiro lugar, não foi fácil o processo de definição sobre quais práticas cristãs eram certas ou erradas. Desde o século 4, sob o Imperador romano Constantino, começaram a definir-se os dogmas, com o Concílio de Nicéa, realizado em 325. Os dogmas são as verdades inquestionáveis que norteiam os católicos. No decorrer dos séculos, outros dogmas foram sendo criados, alguns foram reafirmados, outros negados.

Separação e perseguição: A Igreja Ortodoxa

Contudo, nesse processo, ainda no século 11, as discordâncias entre o clero estavam longe de ter fim. Foi isso que motivou o Cisma do Oriente em 1054, ou seja, a separação entre a Igreja católica de Roma e a Igreja católica do Oriente, que abrangia Constantinopla, Grécia e Ásia Menor. Discordando da adoração de imagens de santos e figuras divinas, a ala oriental da Igreja Católica fundou uma nova prática cristã com a Igreja católica ortodoxa grega. Essa é uma religião existente até hoje, com algumas crenças e rituais diferentes da Igreja católica romana.

Assim, ao irem se definindo as crenças e práticas que os cristãos deveriam obedecer, a Igreja romana passou a perseguir os que não compartilhavam dessa postura. A tentativa de controlar as mentes das populações sob seu domínio, aumentando seu poder de influência e sua riqueza, fez com que a Igreja Católica usasse de todos os meios para se impor.

Um desses meios foi a própria doutrinação religiosa. Como as pessoas eram proibidas de terem outras religiões que não a católica, frequentar os cultos nas igrejas e praticar os ritos católicos eram as únicas manifestações culturais permitidas. As igrejas, como templos de Deus, funcionavam como um meio das pessoas serem instruídas na fé e temerem a ira divina sobre aqueles que pecavam.

"A liberdade de consciência diz respeito ao íntimo dos indivíduos. Mesmo o uso da violência ou a tortura não é capaz de cerceá-la; o indivíduo pode até ser coagido a determinadas ações, mas é impossível controlar o que se passa em seu pensamento. A liberdade de crença, também de caráter interior, “aloja-se no ninho da liberdade de consciência”. Já a liberdade de culto é a exteriorização da liberdade de crença e ocorre no espaço coletivo"

 

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