Pré Reformadores

Pré Reformadores

 

SEMINÁRIO ON-LINE

ARTIGO

Teologia Histórica:

Os Pré-Reformadores

REV. BRIAN GORDON LUTALO KIBUUKA

Rio de Janeiro

2003

 

 

SÍNTESE HISTÓRICA SOBRE OS PRÉ-REFORMADORES

 

Rev. Brian Gordon Lutalo Kibuuka

 

1. Introdução

 

No panorama histórico da pré-reforma, entre as várias condições essenciaispara a compreensão de um movimento de tamanha importância, é necessário compreender:

- A abordagem das transições teológicas, econômicas, sociais, políticas e geográficas, desde o período em que estas exigem uma série de transformações religiosas, como foi a Reforma Protestante;

- A abordagem dos movimentos Pré-Reformadores, como sendo os que fornecem, até certo ponto, as bases dos movimentos de Reforma.

Neste trabalho, nos concentraremos nos movimentos pré-reformadores, no que concerne seu contexto, seus principais expoentes e seus seguidores: John Wycliff e os Lolardos, John Huss e os Hussitas e Jerônimo Savonarola. Pretendemos abordar estas questões de posse das seguintes informações:

a) Condições econômicas e políticas do período dos pré-reformadores;

b) desenvolvimentos teológicos anteriores aos pré-reformadores;

c) o misticismo alemão e a Devoção Moderna.

 

a) Condições Econômicas e Políticas do Período dos Pré-Reformadores;

Os Pré-Reformadores estão inseridos num mundo vivendo numa profunda transição. O modo de produção feudal e a economia como um todo entra em declínio em decorrência de cinco fatores: a instabilidade política, o fim das cruzadas, o crescimento populacional e o declínio da agricultura, e a peste bubônica.[i]

A instabilidade política no período feudal é decorrente da existência de vários feudos e vários senhores feudais, que brigavam entre si e taxavam os produtos que passavam em suas terras. [ii]Este sistema descentralizado não pôde subsistir às novas necessidades do Estado, frente a burguesia, nova classe promissora que surgia no período, e a necessidade do rei de maior concentração do poder para fazer frente à nobreza feudal. [iii] O fim das cruzadas, que outrora haviam sido uma grande fonte de lucro e produtos, comprometeram o prestígio do papado e  da Igreja, que cobravam tributos para financiar as expedições. Com o declínio destas, o retorno econômico das expedições foi tão ínfimo que minaram as bases econômicas formadas com base nestas.[iv]O crescimento populacional conjugado com o declínio da agricultura provocou a fome e disseminação de epidemias,[v] como a peste bubônica, que em três anos varreu o continente europeu, matando aproximadamente a terça parte da população.[vi]

Além destes fatores, podemos acrescentar a Igreja como um obstáculo para o progresso da burguesia nascente e para o fortalecimento das monarquias nacionais, pois era o maior senhor feudal da Europa, taxava os Estados, intervinha em assuntos do Estado e era sustentada pelos habitantes das cidades e camponeses.[vii]

Podemos acrescentar como fator fundamental o problema do “Cativeiro Babilônico” , que foi a existência de um papa na cidade de Avignon.  Posteriormente, o Grande Cisma, que foi a existência de dois papas, um em Roma e outro em Avignon, descentralizou o poder da Igreja Romana, facilitando a oposição das monarquias à igreja.

b) Desenvolvimentos Teológicos anteriores aos Pré-Reformadores

Podemos colocar historicamente o período da escolástica através do seguinte quadro:[viii]

 Século

Etapa

Corifeus

VIII-X

Gestação

-

XI-XII

Inícios

Anselmo de Cantuária, Pedro Abelardo, Pedro Lombardo

XIII

Alta Escolástica

Escola Dominicana: Alberto Magno, Tomás de Aquino, Mestre Eckhart

XIV-XV

Escolástica Tardia

Escola Franciscana: Boaventura, Duns Escotos, Guilherme de Ockham, Gabriel Biel

 

Os pré-reformadores estavam fortemente influenciados pela concepção de Tomás de Aquino da Teologia gerada por um duplo foco: da revelação e da reflexão autônoma, sob a síntese da fé cristã e do pensamento aristotélico.[ix] Este aspecto gerou um impasse teológico, no sentido que a teologia estava fadada a morte, suprimida pela abrangência da Teodicéia. Este impasse não foi bem resolvido com as formulações de Duns Escotos e Guilherme de Ockham, e permanecia gerando problemas até o período dos Pré-Reformadores.

No período pré-reformador, o aspecto que mais influenciou a teologia destes foi a diferença entre realismo, realismo moderado e nominalismo. O realismo é o conceito teológico derivado do platonismo de que os universais ou idéias existem independentemente das coisas particulares, conceito resumido na expressão latina universalia ante rem (os universais existem antes das coisas criadas). A crença nisto implica, numa atitude extrema, no panteísmo. Os principais adeptos desta concepção foram Agostinho e Anselmo.[x]

Os realistas moderados defendiam que os universais têm uma existência objetiva, ainda que não existam separadas das coisas individuais, mas nelas, conceito resumido na expressão universalia in re (os universais existem nas coisas criadas). Esta crença implica na busca da verdade sobre Deus nas coisas criadas, desenvolvendo uma Teologia Natural. Os principais adeptos desta concepção são Tomás de Aquino e Abelardo.[xi]

O nominalistas criam que as verdades ou idéias não tem existência fora da mente, sendo apenas idéias subjetivas formadas pela observação das coisas. A expressão latina é universalia post rem (os universais existem depois das coisas criadas). Este conceito implica numa separação entre a teologia e a razão, já que o absoluto é inacessível a esta. Foi defendido por Roscelino, Guilherme de Ockham e Duns Escotos.[xii]

Os pré-reformadores não se desligaram das tendências teológicas do seu período mas adotaram a maior parte das doutrinas. O diferencial deles em relação ao seu tempo é relacionado à um movimento moderado de retorno a Agostinho juntamente com modificações eclesiológicas importantes, que foram de encontro com as estruturas da Igreja neste período.

c) O Misticismo Alemão e a Devoção Moderna

Segundo Earle E. Cairns, o misticismo surgiu devido a ênfase escolástica da razão, em detrimento da emoção.[xiii] Portanto, é a expressão dos nominalistas que se voltaram para o misticismo como forma de conhecer a Deus.

Pode ser identificado historicamente dois tipos de misticismo: o misticismo cristocêntrico, centrado na pessoa e influência de Cristo entre os místicos, e o misticismo neoplatônico, de tendência mais filosófica e especulativa.[xiv] O misticismo se desenvolveu principalmente na Alemanha, nas margens do Reno. O maior representante do misticismo é Mestre Eickhard, essencialmente neoplatônico, que parte do princípio de contemplação da divindade no sentido intuitivo, pois a mente conserva a capacidade de conhecer à Deus. Esta capacidade não está na razão, mas na intuição. A mística foi desenvolvida nos conventos, sem quase se externar, num período de grande necessidade em que surgiu a devoção moderna.

A devoção moderna foi o movimento surgido no seio da burguesia, entre os carentes de expressividade espiritual num período cuja escolástica havia abolido o espaço para a piedade medieval. Esta entrara em declínio e a devoção moderna prezava por algo que havia se perdido na Idade Média: o temor a Deus e a santificação no dia-a-dia.[xv]

 

 

 

2. Os Pré-Reformadores

2.1 John Wycliff e os Lolardos

a) Biografia

John Wycliff nasceu em 1320,  em North Riding of Yorkshire.[xvi] Formou-se no Balliol College, de Oxford, e foi ordenado sacerdote em data desconhecida, sendo indício da sua ordenação a sua atividade na Igreja de Westbury-on-Trim, além de pertencer a uma Cúria Romana em 1361.[xvii] Estudou na Universidade de Oxford, sendo, após a graduação, professor de Filosofia com grande êxito. Graduou-se Doutor em Teologia em 1372 e foi candidato à reitoria da paróquia de Lutterworth, devido aos bons serviços prestados à coroa, foi concedida a ele esta em 1374 e exerceu este cargo até sua morte. Tanto seu período na Igreja de Westbury-on-Trim quanto em Lutterworth são indícios claros da sua participação na simonia da qual usufruíam os grandes prelados, por obter vantagens econômicas através do serviço à Igreja.[xviii] Homem de destaque entre os seus contemporâneos em Oxford, Wycliff fez parte de uma comissão real reunida em 1374 na cidade de Brujas, com o propósito de decidir com delegados do papa a questão dos impostos que Roma exigia do povo inglês. Teve o apoio de John de Gaunt, duque de Lancaster e filho de Eduardo III, e de outros do seu grupo político que tiveram contato com suas primeiras posições sobre o “senhorio”, contrárias a sangria econômica imposta aos ingleses. Wycliff, destituído de um senso mais acurado sobre as realidades políticas, terminou por não ser bem-sucedido nas negociações, bem como não foi chamado para nenhuma outra destas.[xix]

Wycliff, ao retornar a Inglaterra, surgiu com um discurso crítico à Instituição Católica-Romana. Este discurso ficou cada vez mais diretivo e acirrado à medida que aprofunda-se no conhecimento das Escrituras e utiliza o rigor da sua lógica. Suas críticas à Igreja se acirram mais com o Grande Cisma de 1378. Escreve o tratado Do Domínio Civil, lido para seus alunos no Outono de 1376, que inspiraram os parlamentares ingleses a produzirem os 140 artigos de uma lei para corrigir os abusos eclesiásticos. Neste e outros tratados, Wycliff aponta a incongruência da Igreja quando se ocupa a adquirir bens temporais. Estas atitudes de Wycliff, evidentemente contrárias a Igreja e suas práticas, fizeram com que ele fosse convocado pelo bispo de Canteburry, que ordena a Wycliff que se apresente ao bispo de Londres e 1377.[xx] Ele vai acompanhado de Lord Percy e mais quatro doutores, que defenderam Wycliff antes mesmo de qualquer pronunciamento seu, o que provocou o final da reunião. Em maio de 1377, Gregório XI condena 18 teses do livro Do Domínio Civil. Apesar disto, Wycliff  não foi preso: foi protegido. Alguns meses depois, quando consultado sobre a legalidade da proibição de emitir dinheiro para Roma, ele afirmou ser esta proibição legal. O cisma do Ocidente, provocado pela eleição de Clemente VII no lugar de Urbano VI, em 1378 foi duramente reprovada por Wycliff, que identificou o papa com o anticristo, afirmando ser possível a Igreja subsistir sem o papa.[xxi]

As doutrinas de Wycliff sobre o “senhorio” tiveram grande valia para a coroa num momento histórico em que era necessário. Posteriormente, os nobres começaram a perceber que suas doutrinas também versavam que o senhorio dos próprios nobres só era válido se estes servissem seus súditos.[xxii]  Juntamente com o desenvolvimento desta doutrina, Wycliff escreve em 1380 um ataque formal contra as doutrinas da eucaristia, inclusive a transubstanciação, chamado Trialogus: tratado precedente da teologia de Lutero. Ele também preparou uma tradução da Vulgata. Mais uma contribuição de Wycliff foi a escrita em forma de prosa, inédita na língua inglesa. Estas atitudes radicais de Wycliff foram usadas pelos nobres para eliminar o perigo de suas doutrinas sobre o senhorio, ao passo que seu radicalismo o fez perder o apoio na Universidade.[xxiii] Foi exigido o silêncio dele por John de Gaunt, em vista da oposição sofrida por ele referentes às suas doutrinas e, por fim, ele ficou praticamente isolado. Em 1381, uma revolta é movida pelos camponeses, de certa forma influenciados por suas doutrinas de igualdade na Igreja e sobre o “senhorio”.[xxiv] Neste ano, o bispo de Courtenay, seu maior inimigo, convocou para Wycliff um tribunal no convento de Blackfriars, havendo a intervenção neste caso da Universidade, que negou a jurisdição do bispo a Wycliff. Em 1383, Wycliff sofre um ataque de paralisia e, em 28 de Dezembro de 1383 tem outro ataque, e morre na véspera do ano novo. Ele foi enterrado em Lutterworth, sendo desenterrado, após condenação no Concílio de Constança (1415), pelo bispo Fleming, em 1428. [xxv] Foi queimado e suas cinzas foram jogadas no rio Swift.[xxvi]

b) Doutrinas

Segundo Justo Gonzalez, as doutrinas de Wycliff tomaram forma com o tempo, com as controvérsias e com o isolamento.[xxvii] Ele, na elaboração das doutrinas, impunha sob as formulações um rígido processo lógico com a intenção de obter últimas formulações, olhando-as por todos os aspectos. A grande falha de Wycliff foi demonstrada quando participou de negociações: ele não tinha muita facilidade para separar seus conceitos obtidos através de um rígido processo racional e a vida prática.

Wycliff era realista. Como já demonstramos acima, os principais realistas são Agostinho e Tomás de Aquino. Estes dois tem lugar de destaque no pensamento de Wycliff, que elabora a partir destes suas doutrinas sobre eclesiologia e revelação.

Sobre a relação entre razão e revelação, a forma como Wycliff entende a realidade tem ligação direta com seu pensamento, o que o faz conceber que “ambas (revelação e razão) levam a mesma verdade universal”.[xxviii] Wycliff apresentou uma teologia ligada a Agostinho e Tomás Bradwardine, o que está intimamente ligado com sua concepção realista e a reação de alguns teólogos na Inglaterra contra o pelagianismo. A partir do pensamento de Agostinho, Wycliff adotou a doutrina da predestinação, sendo a Igreja a Assembléia dos predestinados. Também adotou a divisão de Agostinho entre Igreja Invisível, formada por todos os predestinados, e a Igreja Visível. Ao identificar na Igreja hierárquica vários problemas de ordem moral e grande corrupção, Wycliff afirma não ser esta a Igreja Invisível, ainda que contenha indivíduos que façam parte desta. Esta doutrina, segundo Paul Tillich, constituía um perigo para a Igreja Romana, já que questionava os membros do clero através daquilo que viviam, sendo desconsiderada a autoridade destes quando demonstram que não estão a serviço dos interesses do Reino de Deus, porque dele não fazem parte.[xxix] Para Wycliff, a Igreja e sua tradição devem interpretar as Escrituras, e isto demonstra que ele não é um mero apologista de Agostinho: nos desdobramentos de suas elucubrações lógicas, a Igreja exerce o papel de intérprete, mas esta Igreja não é a hierarquia, mas todos os remidos. Daí, diz Gonzalez, a necessidade de Wycliff traduzir a Bíblia para o Inglês e entregar esta tradução aos leigos.[xxx]

As doutrinas sobre o “senhorio” de Wycliff, segundo Jean-Jacques Chevalier, “ressuscitam em favor do rei as doutrinas de Gregório Magno”.[xxxi]  Ele afirma isto porque, assim como Gregário, Wycliff ensina que o rei é “vigário” de Deus e representante da realeza de Cristo. A Igreja é independente do governo secular e o governo também é independente da Igreja. O papel do governo secular é servir a população, pois é instituída com este propósito. Portanto, se o Estado não exerce sua função, não deve ser considerado legítimo.[xxxii]

No aspecto da pregação da palavra, a doutrina defendida é que a predicatio verbi (pregação da Palavra) é o sacramento mais importante, além do fato que esta pregação deve ser realizada também por leigos, desde que sejam membros da Igreja invisível, podendo ser esta pregação realizada na língua nacional.[xxxiii]

O ponto mais controverso do pensamento teológico de Wycliff no seu contexto histórico foi seu posicionamento quanto a eucaristia. Quatro anos antes da sua morte, ele atacou a doutrina da transubstanciação, com o argumento que achava impossível que os elementos deixavam de ser pão e vinho. Esta questão era analisada por ele segundo o conceito da encarnação: da mesma forma que a negação da encarnação de Deus constitui a heresia do docetismo, a doutrina da transubstanciação negava a presença espiritual de Cristo nos elementos. Portanto, da mesma forma que na encarnação a alma encontra o corpo, Cristo está presente de forma espiritual nos elementos sacramentais.[xxxiv]

 

 

c) Os Lolardos

O pensamento de Wycliff, dada a sua influência, foi responsável pelo surgimento do grupo denominado Lolardo. Este grupo se originou nos círculos acadêmicos, sendo constituídos inicialmente dos discípulos de Wycliff entre os indivíduos de posição mais elevada.. A gênese do nome deriva de uma expressão holandesa que significa “murmuradores”.[xxxv] Os Lolardos divulgavam suas doutrinas entre o povo, alcançando adeptos entre as classes menos favorecidas. Estes adeptos se tornaram pregadores leigos, anunciando e apontando os desvios do clero, como suas aberrações sexuais, o culto às imagens e a doutrina da transubstanciação. Posteriormente, em 1401, o parlamento, por força da declaração “De Haeretico Comburendo” da  Igreja Romana, condenou à morte qualquer que se denominasse lolardo. Estes forma intensamente perseguidos.[xxxvi] Tentativas foram realizadas para legalizar o movimento, que neste momento tinha uma participação reduzida de nobres ou membros do clero, bem como tinham pouca força política. Segundo Justo Gonzalez, “a maioria deles voltou ao seio da igreja oficial”.[xxxvii] Um movimento lolardo, dirigido pelo Sir John Oldcastle em 1413 e 1414 fracassou e este foi morto. Em 1431, uma conspiração lolarda com a intenção de reformar a igreja e derrubar o governo foi desbaratada, culminando na morte de milhares de Lolardos.[xxxviii] Não obstante a perseguição e as mortes, o movimento lolardo não foi totalmente subjugado, o que foi decisivo para a reforma protestante na Inglaterra, já que grupos Lolardos se uniram aos primeiros protestantes.

 

2.2 John Huss e os Hussitas

a)Biografia

John Huss nasceu em 1373 em Hussinek, uma pequena aldeia da Boêmia.[xxxix] Aos dezesseis anos, ingressou na Universidade de Praga, sendo estudante aplicado. Começou a lecionar em 1398, sendo também ordenado e logo assumiu o posto de pregador da Capela dos Santos Inocentes de Belém, em Praga.[xl] Ele ministrava os cultos em língua Boêmia e introduziu reformas litúrgicas conforme sua teologia.[xli] Neste tempo, pregava contra os abusos da Igreja, sem apresentar variação na ortodoxia comumente aceita.

O posicionamento de Huss, não obstante apresentar um corpo de doutrinas equivalentes ao consensual da época, alcançou os círculos acadêmicos em acirradas disputas. Através de um discípulo seu, Jerônimo de Praga, teve acesso as obras de Wycliff, que vieram a influenciar seu pensamento quanto aos abusos da Igreja, sem nunca adotar posicionamentos de Wycliff quanto as doutrinas da ceia. Sua influência foi crescente, o que levou Huss a pregar em muitos sínodos. Neste período, os alemães eram uma minoria muito influente na Boêmia. Tinham um posicionamento nominalista, contrário ao realista de Huss. Portanto, dois grupos estavam contrários a Huss: os alemães e um setor tradicional da igreja, constantes alvos das críticas do pregador da capela de Belém. Em 1408, um setor tradicional da Igreja se levantou contra ele e o bispo Sbinsko pediu para que ele parasse de pregar. Isto apenas fez com que a sua influência crescesse na Universidade.[xlii] No período do Grande Cisma, sua posição neutra quanto a questão fez com que ele tivesse o apoio do Rei da Boêmia, Venceslau, que apoiava o papa pisano. Este, papa Alexandre V, apoiado pelo bispo de Praga, inimigo de Huss que até aí apoiava Gregório XII, publicou uma bula contra Wycliff e proibiu a pregação fora das catedrais, mosteiros ou Igrejas paroquiais, o que excluía a capela de Belém.[xliii] Ao defender algumas teses de Wycliff, Huss é excomungado, mas não para de pregar.[xliv] Huss foi posteriormente convocado para, em Roma, dar conta de suas ações.  Huss não vai e foi novamente excomungado, agora pelo cardeal Collona em 1411, em nome do papa. João XXIII sucedeu Alexandre V como papa pisano, e publicou uma bula fornecendo indulgências para quem lutasse contra Ladislau de Nápoles, protetor de Gregório XII. Huss atacou esta Bula e ocorreram conflitos em Praga. O Rei, que apoiava o papa pisano, proibiu as críticas a venda de indulgências, sendo posteriormente esta ordem revogada, devido a um acordo entre o papa e Sigismundo, sucessor de Venceslau. Em 1412, Huss foi excomungado novamente por não obedecer nova ordem de se apresentar ao papa em Roma, sendo decretado o interdito a qualquer cidade que acolhesse Huss. Dada esta ordem, Huss se retira para o interior da Boêmia, mas não para com suas pregações.[xlv] Com os rumores sobre a realização de um Concílio em Constança, Sigismundo resolveu fornecer um salvo-conduto a Huss, com o propósito de resolver sua questão.  Quando chega no Concílio, as autoridades tratam Huss como herege, prendendo-o. Sigismundo inicialmente protesta, mas posteriormente revoga sua decisão por não querer ser identificado com um herege.[xlvi] Huss tinha apenas uma opção: se retratar diante do Concílio pelas posições wycliffianas que nunca defendeu. Por ficar irredutível, sua morte é decretada em 6 de Julho de 1415.[xlvii]

b) Teologia

As origens da Teologia de Huss estão nas influências decisivas dos teólogos tchecos anteriores, como Mateus de Janov, e na teologia de John Wycliff. Não obstante a influência deste último, John Huss apresentou uma teologia bem mais moderada que Wycliff.[xlviii] Suas maiores contribuições teológicas foram os seus posicionamentos apresentados em suas pregações. Huss defendia uma fé cristocêntrica, enfatizava a responsabilidade individual, acreditava no perdão de pecados através de Cristo somente, aguardava um juízo escatológico, era contrário a veneração ao papa e deu importantes contribuições litúrgicas, inserindo na capela de Belém uma liturgia nacional.

Huss apresenta como característica básica uma mistura de doutrinas evangélicas com doutrinas católico-romanas.[xlix]

c)Os Hussitas

Após Huss ser queimado, os discípulos deste recolheram a terra que continha suas cinzas. Na Boêmia, o concílio que o havia condenado foi considerado destituído de autoridade. Duas correntes constituíam os movimentos Hussitas contrários a sua condenação no Concílio: um originário na Universidade de Praga, que era formado por seguidores de Huss que haviam tido contato direto ou indireto com suas exposições. Outro tinha origem nas camadas humildade interioranas, sendo dois dos principais os Taboritas e os Horebitas.[l]

O primeiro grupo, os Taboritas (em alusão ao Monte Tabor) eram mais apocalípticos e radicais quanto a rejeição a todos os desvios do clero, bem como a pompa dos cultos e a vida secular. Isto provocava um choque destes inclusive com relação aos Hussitas de Praga, que mantiveram vestes sacerdotais e outros aparatos nos cultos. Não obstante as divergências, os grupos contrários a igreja oficial se uniram, através de um acordo denominado “quatro artigos”, que era constituído de quatro determinações comuns a serem respeitadas por estes grupos. A primeira era a liberdade para a pregação. A segunda, a administração do pão e do vinho, e não apenas do pão. A terceira, que o clero fosse privado das riquezas e a quarta, que os pecados públicos e maiores fossem castigados, particularmente a simonia.[li]

Sigismundo, o imperador da Boêmia, que tinha se sujeitado ao concílio de Constança, não aceitou os quatro artigos e obteve do papa a declaração de cruzada contra os Hussitas. Suas tropas foram até Praga, mas foram derrotadas pelos Taboritas, comandados pelo João Zizka. Estes fatos, ocorridos em 1420, chamaram ainda mais a atenção do papa e de Sigismundo, e em 1421, ambos prepararam um exército de cem mil homens, que também foram derrotados. Zizka perdeu seu único olho que tinha na batalha, mas continuou na luta, se refugiando entre os Horebitas. Com o advento do concílio de Basiléia, foram realizadas tentativas de convencer os Hussitas de comparecer, sob a alegação de erro no julgamento de Huss. Estes não aceitaram, enfrentaram mais uma cruzada, mas foram mais uma vez vitoriosos.

A partir deste momento, era inevitável uma tentativa de diálogo por parte da igreja oficial. Esta firmou um acordo com os Hussitas. Alguns destes, não concordando com o acordo, fundaram a Unitas Fratrum, que chegou a ser muito numerosa na Boêmia e Morávia. Com o advento da Reforma Luterana, eles estabeleceram relações com os protestantes. Os austríacos passaram a perseguí-los e a organização foi praticamente destruída, sendo João Amós Comênio um representante do remanescente, que ainda lutava pela instauração da ordem, o que ocorreu com  o remanescente da ordem, os chamados “morávios”. [lii]    .

 

 

2.3- Jerônimo Savonarola (1452-1498)

Sobre Jerônimo Savonarola, dada a sua proeminência pelo conflito direto com a autoridade papal e sua reforma moral, e não a elaboração teológica ou qualquer paralelo com Wycliff e Huss, bem como um legado transmitido através de um movimento que fosse importante na Reforma Protestante, nos conteremos em esboçar a biografia deste, inserindo nesta as diretrizes de seu pensamento.[liii]

Jerônimo Savonarola nasceu em 1452, em Ferrara.[liv] Educado pelo avô, recebeu deste princípios morais rígidos. Segundo Ricardo Cerni, um sermão ouvido em Faenza, em 1474, o levou definitivamente a escolher o rumo que norteou sua vida por inteiro: entrou para o convento de São Domingo onde recebeu sua formação religiosa. Desenvolveu grande erudição bíblica, como também grande capacidade oratória.

Pela dedicação de Savonarola, este foi enviado a Florença, mas seus sermões não agradaram tanto os florentinos. Indo a Bologna, tinha ali o cargo de Mestre de estudos. Um humanista chamado Pico de la Mirandola, admirador de Savonarola, o indicou  para Lourenço de Médicis. Expositor das Escrituras no Convento de São Marcos, suas conferências começaram a atrair multidões. Convidado em 1491 para pregar em Santa Maria das Flores, sua pregação não agradou os principais da cidade, já que acusava abertamente o abuso dos impostos e a corrupção da cidade. Feito prior no convento, Savonarola fez da vida no convento um "exemplo de santidade e serviço”.[lv] 

Com a morte de Lourenço, Pedro de Médicis assume o governo da cidade, governando com grande tirania. Neste ínterim, Carlos VIII, rei da França, se preparava para invadir a cidade. Savonarola aponta Carlos VIII como enviado de Deus. Este tomou a cidade de destituiu Pedro de Médicis. Carlos VIII, ao tomar Florença, tinha a intenção de impor condições por demais tirânicas, tal qual Pedro. Savonarola, a pedido dos habitantes, interveio, e as condições se tornaram mais favoráveis.

Muitos, neste período, desejavam o retorno dos Médicis. Carlos VIII havia tomado muitos territórios na Itália e, para combatê-lo, foi formada a “Santa Aliança” entre o papa Alexandre V, estados italianos, os monarcas espanhóis e alemães, sendo o papa encarregado de tratar de Savonarola. Este, no entanto, havia inserido na cidade de Florença uma reforma moral: excessos morais e hábitos pagãos foram totalmente eliminados. Livros, jóias, perucas e luxos foram queimados na cidade, com a intenção de eliminar a vaidade. Savonarola estava em seu apogeu em Florença, mas a situação era instável, pois a situação econômica cada vez mais se complicava. Porém, os “milagres” de Savonarola sustentavam a situação provisoriamente.

Savonarola, após negar-se a se submeter a santa aliança, foi excomungado pelo papa, bem como ordenou o cessar de suas pregações. Savonarola declarou inválida as excomunhão, mas parou momentaneamente de pregar. Quando retornou, um discurso contra a imoralidade da igreja teve como veículo a imprensa, além da voz do pré-reformador. Alexandre VI tentou convencê-lo, oferecendo o cargo de cardeal, que foi negado. A partir deste momento entra em declínio o período de Savonarola em Florença.

Com a interdição da cidade, por ordem do papa, a situação econômica piorou ainda mais. Eclesiásticos se uniram aos comerciantes, o conselho da cidade se reuniu e Savonarola foi preso. Torturado e interrogado por legados do papa, passou por três julgamentos, sendo condenado nos três sem direito a defesa por parte de simpatizantes e sem qualquer confissão, a não ser que ele tivera a intenção de apelar a um concílio universal. Dois de seus colaboradores também foram condenados, sendo estes três mortos enforcados e depois queimados, e suas cinzas jogadas no rio Arno.[lvi]

 

Conclusão

Para o surgimento dos pré-reformadores, o panorama social, político, econômico e eclesiástico da época, foi fundamental para que estes pudessem expressar seu descontentamento com a Igreja Romana, bem como divulgar, por vezes com o apoio do Estado, suas posições. Os pré-reformadores, em sua “práxis”, uniram a piedade mística com questionamentos teológicos de origem patrística. Dos místicos alemães e da Devoção Moderna, herdaram a tendência de uma busca pela piedade e devoção. Dos Humanistas, herdaram a busca às origens na patrística, principalmente Santo Agostinho.

A influência dos pré-reformadores provocou o surgimento de grupos que continuaram a desenvolver suas idéias reformadoras. Entre estes grupos, os Lolardos foram decisivos na Reforma Inglesa. Na Reforma Alemã, os Morávios, surgidos dentre os Irmãos Unidos, tiveram também importância fundamental. Esta continuidade culminou na reforma protestante do século XVI.

Em suma, O legado dos pré-reformadores, quer seja teológico, quer seja através dos seus discípulos, propiciou o surgimento das bases e do apoio necessário para a reforma.

Alguns Motivos da Reforma Protestante do séc. Xvi (31/out/1517)

 

                                                                                                  Apostasia

                                                                                        1950 – Ascensão de Maria

                                                                                      1870 – Infalibilidade papal

                                                                                    1854 – Dogma da imaculada conceição de Maria

                                                                                   1600 – Uso de escapulários

                                                                                   1546 – Introdução dos livros apócrifos na Bíblia    

 

31/10/1517 - A VOLTA À BÍBLIA – MARTINHO LUTERO DESCOBRIU E COMEÇOU A LER A BÍBLIA. AFIXOU NA PORTA DA IGREJA DE WITTEMBERG (ALEMANHA) SUAS 95 TESES PROTESTANDO CONTRA OS DESVIOS DA IGREJA, PRINCIPALMENTE A VENDA DE INDULGÊNCIAS

 

                                                                                      1415 – Eliminação do vinho na comunhão (para os comungantes)

                                                                 1316 – Inicia-se a reza da “Ave Maria”

                                                               1229 – Proibição da leitura da Bíblia

                                                             1220 – Adoração da hóstia

                                                           1215 – Dogma da transubstanciação

                                                           1215 – Confissão auricular (confessar pecados ao padre)

                                                         1200 – O pão comum é substituído pela hóstia

                                                       1190 – Venda de “indulgências” (documentos com perdão de pecados)

                                                     1184 – Implantação da “Santa Inquisição”

                                                   1090 – Invenção do Rosário

                                                 1076 – Dogma da infalibilidade da Igreja

                                               1074 – Celibato sacerdotal (padre e freira não podem casar)

                                               1003 – Festa dos “fiéis defuntos”

                                             993 – Canonização dos santos

                                           850 – Uso da “água benta”

                                         783 – Adoração de imagens e relíquias

                                       754 – Doutrina do poder temporal da igreja (política, economia, etc.)

                                     709 – Obrigação de beijar os pés do Papa

                                   606 – Bispo Bonifácio declara-se “Papa”

                                    528 – Instauração do sacramento da “extrema unção”

                                  503 – Doutrina do “purgatório”

                                431 – Culto à Virgem Maria

                              394 – Instituição da Missa

                            375 – Culto dos santos

                          320 – Uso de velas

                        310 – Reza pelos defuntos

 

            C        

            R

            I          O EVANGELHO EM SUA PUREZA

            S

            T

            O

 

 



[i] J. Gonzalez aponta três destes aspectos: instabilidade política, fim das cruzadas e decadência da agricultura. Ver GONZALEZ, J., A Era dos Sonhos Frustrados, p. 11

[ii] GONZALEZ, J., idem, p. 19

[iii] AQUINO, R., e outros, História das Sociedades, p. 420 e 421.

[iv] Idem, pp 401-403.

[v] O historiador Fernand Braudel, sobre este fato, afirma: “Uma má colheita passa ainda. Duas, os preços ficam conturbados, a fome instala-se, e nunca sozinha: mais cedo ou mais tarde, abre a porta às epidemias que, é claro, têm também os seus próprios ritmos.”. Ver: BRAUDEL, F., Civilização Material e Capitalismo, p. 62.

[vi] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 11.

[vii] AQUINO, R. e outros, op. Cit., p. 79 e 80.

[viii] Extraído de LIBANIO, J.B. e MURAD, A., Introdução à Teologia, p. 131.

[ix] Idem, p. 131 e DREHER, M., p. 88.

[x] CAIRNS, E.E., O Cristianismo Através dos Séculos, p. 189.

[xi] Idem, p. 190 e 191

[xii] Idem, p. 193.

[xiii] Idem, p. 202.

[xiv] GONZALEZ, J. A Era dos Sonhos Frustrados, p. 123.

[xv] DREHER, M., op. Cit., p. 119.

[xvi] CERNI, R., Historia del Protestantismo, p. 19. Escolhemos este autor por fornecer uma biografia mais completa e exata. Outros autores, quanto ao ano, fornecem outras indicações, como  Cairns, E.E., O Cristianismo através dos séculos, p. 204, aponta o ano de 1328; Dreher,M., A Igreja no Mundo Medieval, defende o ano de 1324. A Enciclopédia Barsa, p.506, v XVI, aponta o ano de 1330.

[xvii] CERNI, R., op. Cit.

[xviii] Simonia é alusivo a compra e venda de cargos eclesiásticos. O nome deriva de Simão, o mágico, personagem bíblico que pretendia comprar o dom de Deus (At 8:9-13). Ver GONZALEZ, J. , op. Cit., pp. 55 e 85.

[xix] GONZALEZ, J., A Era dos Sonhos Frustrados, p. 83.

[xx] Cerni, R. , op. Cit., p. 21

[xxi] CERNI, R., op. Cit., p. 22 e Enciclopédia Barsa, op. Cit..

[xxii] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 86

[xxiii] CERNI, R., op. Cit., p. 23

[xxiv] CAIRNS, E.E., op. Cit., p. 206.

[xxv] CERNI, R., op. Cit., p. 23-24.

[xxvi] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 85.

[xxvii] GONZALEZ, J., Historia del Pensamiento Cristiano, p. 362.

[xxviii] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 363.

[xxix] TILLICH, P., História do Pensamento Cristão, p. 189.

[xxx] GONZALEZ, J., idem, p. 364

[xxxi] CHEVALIER, J.J., História do Pensamento Político, Tomo I, p. 251.

[xxxii] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 364.

[xxxiii] TILLICH, P., op. Cit., p. 191.

[xxxiv] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 366.

[xxxv] GONZALEZ, J., A Era dos Sonhos Frustrados, p. 89.

[xxxvi] CAIRNS, E.E., op. Cit., p. 206

[xxxvii] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 90.

[xxxviii] Idem, p. 91.

[xxxix] A maioria dos autores consultados concordam com este ano. Apenas Justo Gonzalez apresenta uma data indefinida, Martin Dreher defende o ano de 1369 e P. Kubricht defende o ano de 1372. Veja: CERNI, R., op. Cit., p. 24; DERHER, M., op. Cit., p. 119; GONZALEZ, J., op. Cit., p. 95; KUBRICHT, P., Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, p. 280.

[xl] GONZALEZ, J., Historia del Pensamiento Cristiano, p. 367.

[xli] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 368.

[xlii] CERNI, R., op. Cit., p. 25.

[xliii] GONZALEZ, J., A Era dos Sonhos Frustrados, p. 97.

[xliv] CERNI, R., op. Cit., p.  26

[xlv] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 99.

[xlvi] GONZALEZ, J., idem, p. 100.

[xlvii] CERNI, R., op. Cit., p. 27 e KUBRICHT, P., op. Cit.,  p. 281.

[xlviii] CERNI, R., idem, p. 27 e GONZALEZ, J., op. Cit., p. 367.

[xlix] KUBRICHT, P., Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, p. 280.

[l] GONZALEZ, J., op. Cit., p. 104.

[li] Idem, p. 105.

[lii] Idem, p. 108.

[liii] CERNI, R., Historia del Protestantismo, p. 28;

[liv] CAIRNS, E.E., O Cristianismo Através dos Séculos, p. 207p; GONZALEZ, J., A Era dos Sonhos Frustrados, p. 157.

[lv] GONZALEZ, J., idem, p. 159.

[lvi] Idem, p. 166.